Deixem as crianças em paz

V
Recorte: Visão, via Uma Página Numa Rede Social

Depois de meses (anos?) de furiosa perseguição de uma certa direita a qualquer tipo de iniciativa relacionada com igualdade de género nos recintos escolares, que, asseguram, estão tomados pelo marxismo cultural – o que me leva a crer que esta nova direita vive fechada numa bolha na capital, sem nunca ter colocado os pés numa escola do norte do pais, privada ou pública, onde a ligação com a igreja, directa e indirecta, é a regra, não a excepção – eis que nos deparamos com um episódio peculiar.

Uma reportagem da jornalista Teresa Campos, publicada ontem na revista Visão, conta-nos a história de Sónia Alves, mãe de uma criança de seis anos que frequenta uma escola pública no concelho do Seixal, onde as visitas de um padre, para falar com os alunos, durante o período lectivo, são normais. Numa dessas visitas, o referido padre terá dito aos alunos, crianças de seis anos de idade, que quem não frequenta a cataquese irá para o Inferno quando morrer.

Indignada, a mãe do aluno – e, assegura, outras mães – protestou contra esta situação. A solução apresentada pelo Agrupamento, meses depois da primeira queixa escrita, é, a meu ver, o mais chocante em todo este caso. As visitas mantêm-se, o pároco da freguesia continua a fazer as suas visitas EM PERÍODO LECTIVO, e são os alunos não autorizados pelos pais a participar nestas sermões quem tem que abandonar a sala de aula. Na resposta dada pelo Agrupamento, a direcção do mesmo defende o carácter tradicional destas visitas e assegura que “nunca foi detectada qualquer tentativa de doutrinação”. Com a excepção, aparentemente, da imposição da ideia de uma eternidade a arder no fogo do Inferno, caso o receptor da mensagem, que – nunca é demais repetir – tem apenas 6 anos, não frequente a catequese.

A confirmar-se esta situação, estamos, efectivamente, perante uma ameaça real à escola pública e aos seus alunos. Estamos perante uma situação em que um clérigo, numa escola pública, está a doutrinar crianças, numa fase da sua vida em que estas não têm ainda as ferramentas necessárias para um juízo esclarecido sobre questões religiosas, o que as deixa numa situação de vulnerabilidade. Não é admissível que, numa escola pública, logo laica, e em pleno século XXI, um representante de uma igreja tente impor conceitos do domínio da fé, em ambiente escolar, como se de matéria factual, científica se tratasse. Matéria do campo da razão.

Por muito que isso desagrade a muita gente, como tantas outras coisas em democracia, o género é uma realidade, não uma abstracção dogmática. Quando alguém critica ou se opõe a um debate sobre identidade de género numa escola, o que é legítimo e democrático, a crítica aponta para o tema em si, para a sua discussão e para as eventuais consequências que possam decorrer de tais iniciativas. Mas o género existe, as diferenças de género existem. Não são produto de uma história antiga, na qual alguns decidem livremente (espero!) acreditar, sem qualquer base factual que a sustente que não sejam manuscritos inacessíveis e fechados a sete chaves no Vaticano, e uma Bíblia, alterada ao longo dos séculos em função da vontade de papas e reis.

Não se pretende aqui fazer um ataque à Igreja Católica. Muito menos à fé que cada um tem naquilo que bem entende ter. Trata-se da violação de um limite constitucional, que atinge crianças de muito tenra idade, sem qualquer tipo de protecção ou contraditório. E seria interessante ouvir o que têm para dizer sobre o assunto os influencers da nova moralidade & bons costumes SGPS, alguns dos quais sentados no Parlamento, que, não há muito tempo, anunciavam dilúvios bíblicos porque a escola pública estava a ser invadida por ideologias de esquerda, enquanto se manifestavam nas ruas contra os cortes de investimento público em colégios privados, muitos dos quais de matriz católica. Continuarão eles a defender a imperativo ético e moral de deixar as crianças em paz?